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quinta-feira, 13 de outubro de 2011
O Fogo e a Mendiga
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Virei a esquina lentamente, e meus olhos se enevoaram com uma bola difusa de fumaça preta vindo de encontro com o ar neutro daquela tarde. Não pude notar, de primeiro momento, tudo o que realmente estava em volta daquele furor reluzente. A prata da pickup se misturava a um preto fúnebre que me prendia, juntamente com o cheiro de desespero que aquela cena exalava.
Ao lado, em frente e por toda a quadra dezenas de pessoas se amontoavam, e depois de sair da minha sensação de torpor, pude imaginar que não seria diferente. Pessoas sentem uma irremediável atração por tragédias. Cada uma vendo no reflexo daquela chama, um pouco de si que também queimava.
Gritos e comentários fervilhavam ainda mais a cena, e o calor daquelas pessoas também passou a me queimar por dentro quando soube o porquê do ocorrido.
- Foi uma mendiga desgraçada que botou fogo no papelão, o fogo se dissipou e o carro começou a pegar fogo.
- É! Pegaremos-na à madeirada quando a vermos novamente
- Você não viu? – em tom de fofoca - É aquela banguela com dread no cabelo. Acha que pode? Acabar com um patrimônio desses. Eu matava.
Matar alguém já morto – pensei. E olhei para o lado oposto, fugindo daquela cena que já não podia me dizer nada, estava estagnada. Vaguei meus olhos em círculos procurando uma saída, e parei meu olhar na praça, que ficava do outro lado da avenida principal, apertei os olhos. As vozes aos poucos sumiam, era como se eu me transportasse para o lado daqueles cabelos duros e presos numa velha tiara de cor azulada; daquele corpo dando forma a alguns pedaços de roupa. As mãos que seguravam uma coxa de frango eram sutis – a dor do mundo a ensinou a ser delicada com as coisas ao redor, era de uma delicadeza respeitadora. Pude sentir um tremor naquelas mãos. A boca sorria não de escárnio mas de surpresa por ver aquelas nuvens negras chegando ao topo dos céus. Comia com vontade, era o fruto de sua vontade que a mantinha viva. Era a força dos seus dentes, suas mandíbulas animais que não deixavam seu corpo padecer. Mordia.
Pediu dinheiro a um transeunte e este lhe negou. Falou alguma grosseria. Ela continuou a morder seu pedaço de carne, aceitava aquela resposta com tranquilidade, como que intuindo que não era por mal, afinal nem todo mundo é feliz. Nem todo mundo é feliz - repeti para mim mesmo. O fogo da vida corroía aquela mulher, e não havia funilaria que consertasse tal estrago.
De repente, senti que estava voltando para o mundo do carro queimado, quando ouvi:
- Eu matava
Matar quem sente a morte todo dia até que não é uma ofensa. Perdoei aquela injúria, afinal nem todo mundo é feliz.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
O Ladrão da Liberdade
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Por Paty Souza
Por Paty Souza
Ivan acordara sentindo-se rejuvenescido, há muito que não se sentia daquela maneira. Ele, que de tanto pensar em si e apenas em si, havia esquecido de viver. Tirava o atraso da sua vida, como num período de férias depois de cinco anos ininterruptos de trabalho. Estava apaixonado por sua namorada, havia largado um emprego que andava lhe causando úlcera. Agora beijava a mãe longamente, vivia com poucos recursos e muita riqueza no olhar.
Foi ao sair do quarto que olhou para seu cofre. Tinha uma aparência triste aquele cofre prateado, refletia seu velho consumismo, suas velhas drogas, sua não mais presente vida regada a aparências. Resolveu, num ato simbólico e extremamente vivo, destruir aquela memória que lhe feria a alma. Abriu o cofre com destreza, eram seis números e duas letras o seu código.
Olhou numa mistura de pavor e rejeição para aquelas notas amontoadas, olhou como para um resto de comida que devia ser jogado fora, antes que apodrecesse e trouxesse consigo baratas e ratos. Espantava com louvor as baratas e ratos que haviam, por muito tempo, invadido sua vida. Estava limpo, puro, e de repente prestes a encarar um ato heróico.Encheu uma sacola escura com o que devia somar três mil reais, limpou o cofre, e seguiu a passos firmes para o carro. Enfiou a quantia no porta-luvas, sorridente. Ligou o carro, saiu.
O dia estava de um azul limpo, sem nuvens e as ruas ainda estavam vazias. Pegou uma das avenidas principais da cidade, olhando com atenção para os semáforos, pontes e pontilhões. Procurava sua libertação, a pessoa que iria lhe arrancar de vez aquele peso da vida miserável que havia lhe corroído por tanto tempo. Achou. Achou com seus olhos rápidos um homem com uma manta sobre os ombros, e que ainda assim parecia passar frio. Este andava, no que ele achou um belo presente do destino, em direção ao seu carro.
Virou-se para a direita, apalpando no porta-luvas a sacola, seria ele o escolhido, pensava na alegria que ia dar ao homem e a si mesmo. Num gesto rápido virou com o volume em mãos, e então o sorriso se dissolveu de seu rosto. Havia um cano curto e fino em frente , e uma boca semi-banguela que dizia:
- Me passa seu dinheiro agora!
- Mas é exatamente isso que ia fazer, amigo. Vire essa arma para lá, tenho três mil reais e eu já ia te dar.
- Está de brincadeira né, filho da puta? Passa a grana ou eu atiro!
- Mas essa é a grana, vou tirar da sacola para você ver – disse, e dirigiu a mão trêmula para o saco.
- Acha que me engana? Nem fodendo que você me daria algo, eu é que vim te roubar.
Não houveram dez segundos entre o xingamento de um e o pedido que clamava por calma, do outro.
Aqui, nesse texto, jaz Ivan Cardoso da Silva – brasileiro, músico, ex-advogado, deixou um filho, pai, mãe, e uma namorada feliz – morto em tentativa de desapego. Crime: se atrever a desonrar o papel de um ladrão.
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Postado por Dionis Maikon às 00:01 0 comentários
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sexta-feira, 13 de maio de 2011
Passa amanhã, mundo!
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Por Paty Souza
Vou mudar o mundo
Ah, se vou
Mas não hoje
Hoje meu relógio acordou errado
Me importunaram pela manhã
Briguei com o pai
Chutei a porta do carro
Por conta do processo que não sai
Infiltrar-me-ei em todos os casos
Não éticos
De burocratas sociais
De crianças que nada temem (nada tem)
Serei anarquista de boteco
Esquerdista e anti-clero
Mas amanhã que serei
Hoje o tic tac é outro
É minha mente transformada
Em quadro surrealista
De cores foscas e fortes
Que são meus erros
Amores
Fragilidades
E temores
Hoje tenho treze contas para pagar
E a Caixa Econômica Federal
Não se importa com os poetas
Dá-me friamente o recibo por ser mais um
Cuja beleza e potencial são prisioneiros
Como nossos tostões
Antes do quinto dia útil
Hoje estarei inoperante
Amanhã mudo o mundo.
Mais textos e poesias você pode conferir no www.duashistorias.blogspot.com
Por Paty Souza
Vou mudar o mundo
Ah, se vou
Mas não hoje
Hoje meu relógio acordou errado
Me importunaram pela manhã
Briguei com o pai
Chutei a porta do carro
Por conta do processo que não sai
Infiltrar-me-ei em todos os casos
Não éticos
De burocratas sociais
De crianças que nada temem (nada tem)
Serei anarquista de boteco
Esquerdista e anti-clero
Mas amanhã que serei
Hoje o tic tac é outro
É minha mente transformada
Em quadro surrealista
De cores foscas e fortes
Que são meus erros
Amores
Fragilidades
E temores
Hoje tenho treze contas para pagar
E a Caixa Econômica Federal
Não se importa com os poetas
Dá-me friamente o recibo por ser mais um
Cuja beleza e potencial são prisioneiros
Como nossos tostões
Antes do quinto dia útil
Hoje estarei inoperante
Amanhã mudo o mundo.
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quinta-feira, 28 de abril de 2011
Das Cores Vivas de Aquarela
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Por Paty Souza
Perdi minhas idéias
Compromissos
Saudações
Perdi a rota
E a hora
Cansei-me de todas as coisas
Práticas
Táticas
E resolvi deitar a cabeça
Num travesseiro
Não meu, nem seu
De nós:
Um descanso calmo cheio de cheiros
Depois do afago
Nas duas pedras
Suaves, lisas
Depois do abraço, do perdão
Do auto-perdão
A racionalidade fulminante
Saiu fugida
E (obrigada!)
Foi você que expulsou
A duros e apaixonantes
Gritos e sussuros
O que tantos chamam de medo
E eu chamo de “o mal da paixão
[que não se realiza sem a entrega completa”
Tanta sede, tanta água
Duas mãos entrelaçadas
Meio a camas, pernas, bocas
Olhos e palavras
Entrando como um feixe de luz
(É muita luz a força dela)
Nesse vazio prestes a se dar
Em cores vivas de aquarela
Duas flores
Uma verde, outra azul
Voam pela cidade
Num céu que se desfaz
E chega a encandear
Dentro da etérrea e fina paz
Um hálito fresco
De beijo, mordida voraz
Gritando ao crepúsculo
O erro mais bem programado
Que um desacreditado amante poderia acreditar
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Por Paty Souza
Perdi minhas idéias
Compromissos
Saudações
Perdi a rota
E a hora
Cansei-me de todas as coisas
Práticas
Táticas
E resolvi deitar a cabeça
Num travesseiro
Não meu, nem seu
De nós:
Um descanso calmo cheio de cheiros
Depois do afago
Nas duas pedras
Suaves, lisas
Depois do abraço, do perdão
Do auto-perdão
A racionalidade fulminante
Saiu fugida
E (obrigada!)
Foi você que expulsou
A duros e apaixonantes
Gritos e sussuros
O que tantos chamam de medo
E eu chamo de “o mal da paixão
[que não se realiza sem a entrega completa”
Tanta sede, tanta água
Duas mãos entrelaçadas
Meio a camas, pernas, bocas
Olhos e palavras
Entrando como um feixe de luz
(É muita luz a força dela)
Nesse vazio prestes a se dar
Em cores vivas de aquarela
Duas flores
Uma verde, outra azul
Voam pela cidade
Num céu que se desfaz
E chega a encandear
Dentro da etérrea e fina paz
Um hálito fresco
De beijo, mordida voraz
Gritando ao crepúsculo
O erro mais bem programado
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quinta-feira, 14 de abril de 2011
Rivotril
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Por Paty Souza
Sou...Seria...Serei
A gola da camisa bem passada
O sorriso terno de piedade
Da piada mal contada
O intragável silêncio
Dos assuntos que de nada importam
E o rosto bem comportado
Da submissão
(Ah, mas sua hipocrisia me deixou inconfortável comigo mesmo)
Sou ânsia
No banheiro da empresa
A faixa de parabéns, meu querido chefe
O presente do namorado que trai
E o dinheiro do rapaz cheio de medos
Sou o espaço entre o que fui
E o que sou
Sou a incongruência desajeitada de um padrão regurgitado
Ou seria, sou, fui então
A cocaína da noite passada
O cabelo mal penteado
Da noite de sexo ardente
Com uma mulher
Duas
E um homem
Que gosta talvez de outro homem
Que não gosta de ninguém
Sou a ingratidão ao porteiro
E a escravidão da hierarquia
Sem alforria
O foda-se papai
A negligência da mamãe
Uma hipocondria cotidiana
Da doença que são as pessoas
O ódio encarcerado
De todas as meninas gordas (magras, na verdade)
Nas academias abarrotadas
Sou o espelho, que é a revista de moda
O bar lotado, de gente vazia
Que espera um pouco mais dessa noite
Sou uma dúzia de pensamentos
Esvaziando-se,
Reprimindo-se
Inativos
Enterrados sob o jardim
Colorido
Grande
Cheio de memórias
Palavras não ditas
E sentimentos vivos
Integralmente não sentidos
Lá as crianças brincam
Felizes
Andando sobre mentiras
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Por Paty Souza
Sou...Seria...Serei
A gola da camisa bem passada
O sorriso terno de piedade
Da piada mal contada
O intragável silêncio
Dos assuntos que de nada importam
E o rosto bem comportado
Da submissão
(Ah, mas sua hipocrisia me deixou inconfortável comigo mesmo)
Sou ânsia
No banheiro da empresa
A faixa de parabéns, meu querido chefe
O presente do namorado que trai
E o dinheiro do rapaz cheio de medos
Sou o espaço entre o que fui
E o que sou
Sou a incongruência desajeitada de um padrão regurgitado
Ou seria, sou, fui então
A cocaína da noite passada
O cabelo mal penteado
Da noite de sexo ardente
Com uma mulher
Duas
E um homem
Que gosta talvez de outro homem
Que não gosta de ninguém
Sou a ingratidão ao porteiro
E a escravidão da hierarquia
Sem alforria
O foda-se papai
A negligência da mamãe
Uma hipocondria cotidiana
Da doença que são as pessoas
O ódio encarcerado
De todas as meninas gordas (magras, na verdade)
Nas academias abarrotadas
Sou o espelho, que é a revista de moda
O bar lotado, de gente vazia
Que espera um pouco mais dessa noite
Sou uma dúzia de pensamentos
Esvaziando-se,
Reprimindo-se
Inativos
Enterrados sob o jardim
Colorido
Grande
Cheio de memórias
Palavras não ditas
E sentimentos vivos
Integralmente não sentidos
Lá as crianças brincam
Felizes
Andando sobre mentiras
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quinta-feira, 7 de abril de 2011
Sobre Feijões e Homens
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Por Paty Souza
Não que ele fosse infantil, longe disso. Mas seus gestos rápidos e alegres deixavam escapar um furor juvenil que poderia causar inveja a diversas crianças presas em corpos de adulto. Era conhecido com a mais carismática presença daquele mercado de bairro. Diziam que não tinha como conhecê-lo e não querê-lo bem. Que não tinha como não querer entrar de novo na fila de pesar o feijão. E ele pegava-o com tanto respeito. Feijão preto, senhora? Mas é pra já. E colhia do recipiente, nadava suas mãos delicadamente na leguminosa, e enquanto pesava contava um causo do dia. A senhora saía feliz, pensando em que belo jantar serviria.
Certo dia, apareceu um homem de meia-idade, barbicha, com o queixo empinado do jeito que só a arrogância permite empinar. Chegou pedindo muitas coisas. Meio quilo de feijão preto, setecentos gramas do carioquinha, ah me veja um quarto de arroz integral, não me venha pesando para cima que eu não aceito. Jonas atendia com precisão. O homem avermelhava e matutava, incômodo.
Não obstante, decidiu então ir além dos grãos:
- Rapaz, você estuda?
Jonas, com o mesmo sorriso do início do pedido:
- Acabei de me formar em Letras, senhor.
O homem desavermelhava, num prazer intenso de superioridade. Era chefe do Departamento de Letras da Uni Qualquer Coisa. Tinha encontrado um motivo para se sentir quite com sua derrota pessoal.
- Você? Formado em Letras? Ah sim... Claro – Lembrava das vezes que ele repetira a palavra “causo” para contar suas histórias, e moldava seu sorriso de escárnio.
- Sim, em Letras.
- Então me diga...Por que um homem de formação universitária se mantém numa espelunca como essa, porque convenhamos que ou você é louco, está mentindo, ou é burro.
- Olha senhor, vou te explicar - voltando os olhos negros para os do homem - Quando passo a mão nesses feijões brancos flutuo como na poesia em prosa de Clarice Lispector, veja, não há sensação melhor – e enfiava a mão pelos feijões, transmitindo uma sensação de voô em terra.
O barbicha estarrecido.
- Enquanto quando passo a mão nesse milho, duro, pueril, brasileiro, me entrego como Monteiro Lobato em suas obras para as crianças. Ah o milho, amarelo como a infância.
As pessoas se amontoavam na fila, queriam ver de perto o espetáculo. O homem recuava.
- Agora esse arroz branco que aqui está – apontava para um recipiente separado dos outros – esse me remete, e me permita aqui dar um passo para a Filosofia, à arrogância de Friedrich Nietzsche. Separado e deslumbrado, o arroz acha-se superior por ser o preferido do prato brasileiro. Mas esquece que tão logo passa seu prazo, não sai mais. E outra, quem aqui não sabe que o arroz sem feijão é um horror? Só um feijão sorridente poderia curar a arrogância cabisbaixa de um arroz tedioso e esquecido.
Foi nesse momento que toda a fila, que já nem era mais fila, mas sim uma massa de espectadores, começou a bater palmas, assoviar, gritar o nome do rapaz em polvorosa.
Nunca mais se viu o barbicha por aquele bairro.
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quinta-feira, 31 de março de 2011
I'm sorry, I lost myself
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Por Paty Souza
Por Paty Souza
Por um momento pensei no quanto aquele sentimento de raiva te consumia aos poucos, e você não notava, tornava a humilhar sua melhor amiga, a trancar a porta do quarto, e a acreditar que as mentiras sempre venceriam. Eu via por trás do que você falava, via uma criança encolhida num canto, sem entender porque o pai não elogiou sua boa nota, e ignorou sua frase inteligente. Vi uma menina triste, que tratava o amor como uma invenção mediada por cabeças calculistas, que não suportariam não se encontrar nos olhos alheios, e que um dia viriam a se consumir na sua mesma raiva, e então você se sentiria vitoriosa, triunfal.
Foi mergulhada na sua raiva que senti um vento de derrota passando por minha nuca, e fui um fantoche por um momento, daqueles que podem ser manipulados com poucos movimentos. Senti toda aquela derrota de ser alguém sem sê-lo, e me perdi nas suas sensações, na incapacidade de te fazer sentir por um momento que o amor pode ser bom e real. Mesmo que não seja.
Gosto quando me encontro comigo e sinto a palavra inteira e tão humana saindo das bocas quentes e vivas, mas me aflijo quando as coisas que penso e sinto simplesmente desaparecem do mundo e eu não consigo fazer nada além de lamentar por ser fraca como todo mundo é.
Me desculpa, eu me perdi. Me desculpa, eu te perdi.
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quinta-feira, 24 de março de 2011
Um Choro na Terra
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Por Paty Souza
- Mas eu tenho que ir já?? Como fui escolhido?
Deus, com um meio sorriso que expunha um sarcasmo bondoso, respondeu objetivamente:
- Você tem exatamente o que precisa para ser um humano nato. O que não tem, aprenderá com outros escolhidos.
O sopro ansioso estava confuso, embasbacado com a possibilidade de ter perna, barriga, sentir gosto, dormir. Porém, tinha ainda dúvidas quanto à legitimidade da escolha:
- Mas por quê eu?
Deus então sentou e puxou uma cigarrilha que havia sido trazida por seu filho Jesus. Este nem pra estar aqui me ajudando, o malandro sempre sai quando tem trabalho a se fazer – pensou ele. (Mas seu pensamento era o mundo todo e não fazia questão de ser escondido. A frase soou, então, pelo campo cheio de cores, numa voz firme e acolhedora.)
- Preciso de alguém que se ache o centro de tudo que existe, capaz de criar seitas para me adorar, achando que eu seria capaz de amar unicamente a sua espécie e nenhuma outra.
A outra voz respondeu:
- Moleza, isso eu faço.
E continuou, acendendo sua cigarrilha com restos de uma labareda provinda de uma queimada que havia matado homens, mulheres, crianças, plantas e flores:
- É essencial que possua habilidades de segregação, e que cultive preconceitos. Se você puder escrever e divulgar um livro com regras que te façam sentir bem consigo, mesmo que isso signifique me difamar como um pai incoerente e desigual, melhor ainda. E crie mágoas, feche círculos, construa paredes com o propósito de me adorar mesmo com essa difamação, não esqueça.
- Ah isso tudo é muito fácil.
- Sabia que você não me decepcionaria
O sopro foi se preparando para aquilo que sempre esperou, para o momento que sua eternidade bravamente buscou. E fez a pergunta, imaginando ser a última que faria diretamente a seu pai amoroso e justo:
- Mas meu pai, eu temo te odiar lá de fora. A ilusão pode me confundir, e perder o amor puro que aqui sinto.
- É possível que isso aconteça. Por isso te pergunto: você seria cínico o suficiente para me odiar, por vezes nem me sentir, não amar seus iguais, e buscar refúgio em palavras pré-estabelecidas, cujo significado por vezes você nem entende?
- Seria pai.
- Seria capaz de se casar mesmo sem amor, e trair sua esposa com a vizinha? E mesmo espalhando sofrimento, julgar seu irmão pobre que roubou frutas da venda, por fome? Tudo em meu nome? – a voz ficou de repente, mais grave – nunca se esqueça, tudo em meu nome. Todos os frutos de seus medos, falhas e angústias devem ser covardemente justificados em meu nome.
Após alguns segundos de silêncio:
- Sim, pai, eu seria capaz de tudo disso - pensava ainda na perna, olhos e em todas as sensações que teria.
- Você será um humano legítimo.
O sopro se desfez e um choro de criança pôde ser ouvido num dos cantos da Terra.
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quinta-feira, 17 de março de 2011
A Senhora do Ônibus
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Por Paty Souza
Através do vidro antigo do ônibus, eu observava a paisagem da manhã invadindo a cidade. Um céu de um azul brusco e vivo coloria um dia que se iniciava, enquanto garotas, senhores e crianças se entreolhavam com antipatia, buscando no aperto da passagem do coletivo um motivo para libertar a vida cansada que os atingia. Eu, em minha paisagem interna, menos azul e fresca que a externa, também me desaguava. Era o prazo final para entrega do serviço que eu tinha que já ter finalizado. Tanta responsabilidade me cabe. A conta do cartão de crédito que abusava da minha conta bancária, meu irmão que falhava com meus pais, o amigo que já não estava mais por perto, a colega fofoqueira de trabalho, tão frustrada e negligenciada, cuja essência eu buscava há meses encontrar, mas fracassava. Nuvens e mais nuvens daquilo que de maneira alguma se mostrariam capazes de prever o que eu estava prestes a sentir...
Dois pontos antes de eu descer, vi levantar do assento uma senhora: empregada doméstica de uma antiga casa em que morei, eu bem lembrei dela na hora, porém não do seu nome. Mas foi tão melhor assim, pois não pude etiquetá-la, e não é isso que fazemos todos os dias? Nos etiquetamos como mercadorias, fazendo com que assim raras vezes consigamos verdadeiramente nos enxergar com a humanidade que nos cabe e verdadeiramente nos torna um só.
Felizmente da voz dela eu lembrei, uma voz fina que fazia dueto com seu jeito simples e carismático de gesticular enquanto fala. Olhei para aquele corpo cheio de carne, apoiado em dois chinelos gastos, e colorido por uma pele morena beirando a negra. Cabelos encaracolados ao extremo, e mais da metade deles brancos, entregando uma experiência já adiantada daquela vida que certamente não fora fácil, que certamente não incluiu festas chiques de alto escalão, nem vantagens atingidas através de mestrado, doutorado, pós doutorado; ou através de qualquer curso intensivo em puxa-saquismo. E era isso que me buscava, e tocava-me de maneira a encher de lágrimas uns olhos que andavam secos, áridos como a brusquidão entra as pessoas.
Senti-me vermelha, quente, um bicho em ebulição. A morte em vida talvez seja pior que a morte real, mas pertence ao pacote de condições humanas manter-se em morte, e muitos utilizam essa capacidade com esmero. Mas a senhora não. Em agradecimento e alegria, quase gargalhei olhando para ela, que sorria branda, olhando para um céu azul que ninguém mais parecia notar. Ela estava pronta para limpar mais uma casa. E depois, cansada, voltar para a sua, tirar aqueles chinelos gastos, deitar folgada no sofá; e contar, numa voz cortante, histórias boas para seus filhos.
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quinta-feira, 10 de março de 2011
Parágrafo Cotidiano
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Uma menina se retorce no pequeno espaço do banheiro da escola, suas lágrimas molham o chão enquanto a palavra “gorda” ecoa em sua cabeça. Foram três meninas magras e enfadonhas que a chamaram assim. Seu pai não faz idéia do que se passa, até prefere assim. Gasta a maior parte do seu tempo escolhendo gravatas e paletós, precisa fazer jus à imagem de moço fino e educado que com tanto esforço criou. A mãe dele está no cabeleireiro, tentando explicar como quer as novas mechas do cabelo, está profundamente insatisfeita com o atendimento do salão. Seu marido acaba de discutir com o taxista, pois acha que ele poderia ter feito um caminho mais curto, quer um bom desconto do valor que foi cobrado, se sente um injustiçado. O chefe deste está muito feliz com o funcionário subserviente que arrumou, pois pode lhe delegar mais funções e passar mais tempo com a Suzi, irmã da empregada da família. A esposa do chefe cria os filhos com amor, e se sente completa ao vê-los brincando de molhar o cachorro. Sua filha mais nova é a melhor amiga da menina do início da história. Ninguém sabe que ela continua chorando no banheiro.
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quinta-feira, 3 de março de 2011
O Silêncio que Precede o Amor
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Por Paty Souza
Era jovem e bela, mas não de uma beleza óbvia, e sim daquelas que se pode medir nos sorrisos e abraços. Tinha um quê de dor passada, de feição contida, de tristeza que transpassou o que quer que seja, e ancalçou um vôo de liberdade. Era isso, sua beleza refletia um vôo de pássaro, enfim, livre.
Acabara de reconhecer a paixão num outro, como em algumas outras vezes, mas dessa vez sem boicotes, ou firulas emocionais. Queria apenas se entregar, e o fazia. Jogava-se naqueles braços magros , e ainda assim tão fortes.
Sentiam-se, em reciprocidade. As bocas leves e um tanto inocentes encontravam juntas um vão de pecado e alegria. Era o encontro de dois seres que já haviam, por precaução, se esquecido do amor. E talvez pelo encontro de palavras ser tão coincidente, e as memórias tão próximas, é que os abraços se tornavam cada dia mais fortes, assim como as saudades.
Bianca resolveu dar o primeiro passo, no que considerava um avanço. Já não tinha receios para tal:
- Que tal nos vermos com mais freqüência?
Gabriel sentiu um frio na espinha, e uma palpitação aparentemente infinita, e respondeu:
- Sossegado.
Ela, nem de longe satisfeita:
- Quero dizer, gosto de estar com você. Você diz o mesmo sobre mim...
- Aham.
- Não estou mais querendo me doar à toa.
Em suas palavras objetivas escondia-se a esperança de manter uma linha de segurança. Não se contentaria com um amor mal falado, pouco palpável. Precisava sentí-lo, tocá-lo, até vê-lo se possível fosse.
Foi quando Gabriel abriu os lábios com furor, respirou e pareceu prestes a dizer algo que seria um divisor de águas naquele impasse. Num gesto de repentina contenção, falou:
- É...entendi!
Tiveram mais alguns encontros esporádicos, e não tarde Bianca se cansou da falta de ímpeto daquele, que para ela, um dia soou como um homem pra toda a vida.
Ela se foi, com tristeza, mas sem olhar para trás.
Ele ficou, com dores no peito e longas noites de saudade. Mas disso ninguém nunca soube.
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Postado por Dionis Maikon às 00:01 1 comentários
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Francamente né, menina!
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Por Paty Souza
Vem, menina! – A mãe dizia em vão, pois ela só sabia olhar o homem que acabara de passar.
Vem, menina! – A mãe dizia em vão, pois ela só sabia olhar o homem que acabara de passar.
- Mãe, por que ele olhou para meu tênis antes de olhar para o meu rosto?
- Como eu posso saber, filha?
- Mas mãe, meu sorriso é muito muito muito mais bonito que meu tênis, e ele olhou para o meu tênis. Meu tênis não sorri.
Paola está vestindo o uniforme da escola primária: branco de listras verdes e finas, meias brancas e compridas, e um tênis preto que parecia maior do que ela necessitava. Um de seus cadarços está solto há horas, era o traço de sua personalidade inquieta e despreocupada se levantando em imagens. Alguns a chamavam estabada, a pequena.
- Mãe eu vou sorrir assim bem grande, fazer meu sorriso me cobrir.
- Está certo Paola.
- Melhor, vou riscar um sorriso no tênis. Assim ele verá um sorriso mesmo se for teimoso.
- Faça como quiser, mas ande depressa e fale baixo, pois todos da fila estão olhando.
Movia-se para a esquerda e para a direita, naquela fila de banco era o único espaço que tinha para se locomover. Olhava para os atendentes, em seus paletós pretos e iguais, não entendia o porque daquela exatidão, tudo igualzinho, pensava. Sua mãe olhava muitas vezes para o relógio, Paola achava aquele relógio muito menos charmoso que o seu, que tinha um despertador com cantos de pássaros. Olhou para a porta giratória e pensou que até seria legal ser barrada naquela porta, pensou que pegaria o celular da sua mãe para fazer aquela porta barrá-la, tinha visto uma moça que não conseguiu entrar por conta do celular na bolsa. Esperava ver aquele policial bigodudo se mover, não o viu sorrir ao mesmo uma vez desde que entrou, na verdade não o viu ao menos mudar de expressão, como pode? No meio dos pensamentos, foi interrompida pela mãe:
- Essa demora, essa falta de respeito com os clientes, e nós pagamos por este serviço.
Com a brandura e uma certa irreverência que enchiam seu peito de alegria, disse:
- Vem cá mãe, eu vou desenhar um sorriso no seu rosto
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Postado por Dionis Maikon às 00:01 1 comentários
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
A culpa das manhãs
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Descendo da estação buscou esvaziar seu pensamento daquela cena, tinha que se concentrar no seu trabalho. Haveria reunião entre os gerentes de marketing do jornal, a redação fica um silêncio nesses dias, como se uma nuvem de ar quente sobrevoasse as seções. Era uma pressão arrebatadora essa do dinheiro, do poder, todos ficavam calados. Ela sempre sentia dificuldades em produzir seus artigos com aquela nuvem passando.
Foi no ponto de ônibus que sentiu culpa novamente. Era o mendigo de todos os dias, vendendo flores - Mas quem iria comprar flores tão cedo? -pensava. Sentia o estômago arder, ao negar a compra de uma rosa por dois reais, argumentando que o dinheiro do ônibus estava contado. Lá vinham as reações fisiológicas: era a boca seca das manhã, o coração levemente acelerado. Obviamente suas notas de vinte reais estavam bem guardadas no fundo da mesma bolsa que continha o livro. Bolsa salvadora. Pensava meio que sem pensar, num lapso.
Foi de relance que percebeu, alguns minutos antes do motorista dar partida, subindo no mesmo ônibus que tomara, uma senhora cujos cabelos brancos chegavam a refletir a luz daquele sol intermitente! A senhora do metrô, a mesma dos olhos duros, intensos, insistentes e ainda assim, tão fatigados - Por que cargas d’água aqueles olhos tinham que ser tão fatigados? - Era ela que subia lentamente com uma rosa na mão. Entre um início de dor de cabeça e um formigamento nas mãos notou: era a rosa do mendigo.
Eram oito da manhã e já sentia culpa. Era a culpa das manhãs.
Sentada no banco de metrô, encontrava o olhos de uma senhora: negros e intensos. Ela queria o lugar, bem sabia. Naquele jato intenso de olhares, sem tréguas, não conseguia fixar seus olhos nos dela por mais de dois segundos.
De início, foi um bocejo que lhe deslocou os olhos, depois que notou que o bocejo não seria suficiente, foi um livro que com muito alívio achou entre seus pertences, dentro da bolsa. Este não só lhe salvou dos olhares insistentes da senhora, como possibilitou a fuga de sua própria culpa por não ceder aquele acento que mais serviria a um conjunto antigo de músculos e ossos do que ao dela, recém levantado da cama. Pensava, pensava - Estou apenas lendo tranquila, e outra: a mocinha do meu lado tem o quê, cinco, seis anos a mais do que eu, no máximo. E por quê eu teria que dar o acento, e não ela? Onde está a cidadania, e aquele adolescente sentado em frente? Por que esses olhos só metralham os meus? Estou apenas lendo meu livro.
Descendo da estação buscou esvaziar seu pensamento daquela cena, tinha que se concentrar no seu trabalho. Haveria reunião entre os gerentes de marketing do jornal, a redação fica um silêncio nesses dias, como se uma nuvem de ar quente sobrevoasse as seções. Era uma pressão arrebatadora essa do dinheiro, do poder, todos ficavam calados. Ela sempre sentia dificuldades em produzir seus artigos com aquela nuvem passando.
Foi no ponto de ônibus que sentiu culpa novamente. Era o mendigo de todos os dias, vendendo flores - Mas quem iria comprar flores tão cedo? -pensava. Sentia o estômago arder, ao negar a compra de uma rosa por dois reais, argumentando que o dinheiro do ônibus estava contado. Lá vinham as reações fisiológicas: era a boca seca das manhã, o coração levemente acelerado. Obviamente suas notas de vinte reais estavam bem guardadas no fundo da mesma bolsa que continha o livro. Bolsa salvadora. Pensava meio que sem pensar, num lapso.
Foi de relance que percebeu, alguns minutos antes do motorista dar partida, subindo no mesmo ônibus que tomara, uma senhora cujos cabelos brancos chegavam a refletir a luz daquele sol intermitente! A senhora do metrô, a mesma dos olhos duros, intensos, insistentes e ainda assim, tão fatigados - Por que cargas d’água aqueles olhos tinham que ser tão fatigados? - Era ela que subia lentamente com uma rosa na mão. Entre um início de dor de cabeça e um formigamento nas mãos notou: era a rosa do mendigo.
Era a culpa de todas as manhãs.
Paty Souza é nossa nova parceira e trará toda quinta sua visão desse tão sofrido e complexo mundo que vivemos. Para ler outras histórias é só acesso seu blog www.duashistorias.blogspot.com
Postado por Dionis Maikon às 00:01 0 comentários
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