Descendo da estação buscou esvaziar seu pensamento daquela cena, tinha que se concentrar no seu trabalho. Haveria reunião entre os gerentes de marketing do jornal, a redação fica um silêncio nesses dias, como se uma nuvem de ar quente sobrevoasse as seções. Era uma pressão arrebatadora essa do dinheiro, do poder, todos ficavam calados. Ela sempre sentia dificuldades em produzir seus artigos com aquela nuvem passando.
Foi no ponto de ônibus que sentiu culpa novamente. Era o mendigo de todos os dias, vendendo flores - Mas quem iria comprar flores tão cedo? -pensava. Sentia o estômago arder, ao negar a compra de uma rosa por dois reais, argumentando que o dinheiro do ônibus estava contado. Lá vinham as reações fisiológicas: era a boca seca das manhã, o coração levemente acelerado. Obviamente suas notas de vinte reais estavam bem guardadas no fundo da mesma bolsa que continha o livro. Bolsa salvadora. Pensava meio que sem pensar, num lapso.
Foi de relance que percebeu, alguns minutos antes do motorista dar partida, subindo no mesmo ônibus que tomara, uma senhora cujos cabelos brancos chegavam a refletir a luz daquele sol intermitente! A senhora do metrô, a mesma dos olhos duros, intensos, insistentes e ainda assim, tão fatigados - Por que cargas d’água aqueles olhos tinham que ser tão fatigados? - Era ela que subia lentamente com uma rosa na mão. Entre um início de dor de cabeça e um formigamento nas mãos notou: era a rosa do mendigo.
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